Sangramento na gengiva durante a escovação, mau hálito persistente, dentes amolecidos e inflamações frequentes costumam ser encarados apenas como problemas odontológicos. Mas esses sinais podem indicar muito mais do que alterações na saúde bucal. Evidências científicas cada vez mais robustas apontam que doenças periodontais estão associadas a um maior risco de doenças cardiovasculares, reforçando a necessidade de uma abordagem integrada entre odontologia e cardiologia.
O tema ganhou ainda mais relevância após a American Heart Association (AHA) publicar um novo posicionamento científico reunindo as evidências mais recentes sobre a relação entre doença periodontal e doença cardiovascular aterosclerótica. Segundo a entidade, há uma associação consistente entre as duas condições, embora ainda não seja possível afirmar que uma seja causa direta da outra. Os pesquisadores destacam que bactérias provenientes da cavidade oral podem alcançar a corrente sanguínea e contribuir para processos inflamatórios sistêmicos, mecanismo que pode favorecer o desenvolvimento ou agravamento de doenças cardiovasculares.
No Brasil, uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Pernambuco (UPE) também reforçou esse alerta ao demonstrar que, em estágios avançados, doenças bucais podem contribuir para complicações cardiovasculares em razão da disseminação de microrganismos e do processo inflamatório desencadeado no organismo.
Para a cardiologista Dra. Bianca Maria Prezepiorski, do Hospital Cardiológico Costantini, a boca deve ser encarada como parte integrante da saúde cardiovascular.
"Durante muitos anos, coração e saúde bucal foram tratados como áreas independentes. Hoje sabemos que essa divisão não faz sentido. Um processo inflamatório crônico na boca pode repercutir em todo o organismo e merece atenção, especialmente em pessoas que já possuem fatores de risco cardiovasculares ou alguma doença cardíaca instalada."
A especialista explica que um dos exemplos mais conhecidos é a endocardite infecciosa, doença potencialmente grave que pode ocorrer quando bactérias presentes na boca entram na corrente sanguínea e alcançam estruturas do coração, principalmente as válvulas cardíacas em pacientes predispostos.
"Nem toda pessoa com doença na gengiva desenvolverá um problema cardíaco. Mas pacientes cardiopatas precisam compreender que negligenciar a saúde bucal significa aumentar um fator de risco que pode ser evitado. A prevenção continua sendo a estratégia mais eficiente tanto para preservar os dentes quanto para proteger o coração."
Muito além do sorriso: inflamação crônica preocupa especialistas
Embora os mecanismos ainda sejam estudados, pesquisadores acreditam que a inflamação provocada pela doença periodontal pode estimular respostas inflamatórias em todo o organismo, favorecendo alterações vasculares e contribuindo para o desenvolvimento da aterosclerose, condição caracterizada pelo acúmulo de placas nas artérias e responsável por infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs).
Para o dentista especialista em Implantodontia da Neodent, Dr. Sérgio Bernardes, manter o acompanhamento odontológico periódico faz parte do cuidado integral com a saúde.
"É fundamental que os pacientes mantenham um acompanhamento odontológico periódico, garantindo a prevenção e o controle eficaz das doenças bucais. Além disso, informar o dentista sobre a condição cardíaca permite que o tratamento seja conduzido de forma integrada, preventiva e mais segura, visando minimizar os riscos à saúde geral."
Segundo a Dra. Bianca, essa integração entre as especialidades já faz parte da rotina assistencial em centros de referência.
"O cardiologista precisa saber como está a saúde bucal do paciente, assim como o dentista deve conhecer seu histórico cardiovascular. Em algumas situações, procedimentos odontológicos exigem planejamento específico, uso de antibióticos preventivos ou adaptações no tratamento para oferecer segurança."
Higiene diária continua sendo a melhor estratégia de prevenção
A boa notícia é que a principal forma de proteção continua sendo simples: escovação correta, uso diário do fio dental e consultas periódicas ao dentista reduzem significativamente o risco de evolução das doenças periodontais.
Pacientes com aparelhos ortodônticos, próteses ou implantes devem redobrar os cuidados, já que esses dispositivos favorecem o acúmulo de placa bacteriana quando a higiene não é realizada adequadamente.
A dentista especialista em Ortodontia da ClearCorrect, Ana Alvoledo, destaca que o próprio tratamento ortodôntico pode contribuir para uma higiene mais eficiente.
"Além da escovação e do uso do fio dental, o tipo de tratamento ortodôntico escolhido pode fazer diferença. Por serem removíveis, os alinhadores permitem que o paciente retire o aparelho durante as refeições e na hora da higiene bucal, facilitando a limpeza e ajudando a reduzir a formação de placa, o que diminui a chance de doenças bucais e, consequentemente, de problemas cardíacos associados."
Para a equipe do Hospital Cardiológico Costantini, a mensagem é clara: o cuidado com o coração começa muito antes do aparecimento dos sintomas.
"Quando falamos em prevenção cardiovascular, pensamos imediatamente em colesterol, pressão arterial, diabetes e atividade física. Mas cuidar da boca também faz parte desse conjunto de hábitos que ajudam a preservar a saúde. O organismo funciona de maneira integrada, e é assim que devemos enxergar a prevenção", conclui a Dra. Bianca Maria Prezepiorski.
Quando a boca pede ajuda
Procure um dentista se apresentar:
- dores de dente;
- sangramento na gengiva;
- mau hálito persistente;
- gengiva inchada, avermelhada ou dolorida;
- dentes amolecidos;
- retração gengival;
- sensibilidade aumentada;
- infecções recorrentes na boca.
Quem deve redobrar os cuidados?
Pessoas com:
- histórico de infarto;
- insuficiência cardíaca;
- próteses valvares;
- cardiopatias congênitas;
- diabetes;
- hipertensão arterial;
- tabagismo;
- obesidade.
Nesses casos, manter cardiologista e dentista informados sobre todo o histórico clínico permite um tratamento mais seguro, integrado e preventivo.